Atendendo a pedidos, muitos, para aparecer por aqui, venho através das bandas siderais e vibrações intergaláticas (exclusividade dos seres abduzidos, é claro) tratar de um assunto bem contemporâneo do nosso mundinho mesmo. O Jazz.
Muitas pessoas fecham mente, alma e coração quando o assunto é esse. Lançam mão de preconceitos caducos, dão justificativas quadradas ou até mesmo partem para a intolerância explícita - não quero, não gosto. Bem, longe de querer julgá-las, na verdade até as compreendo, e bem. Compreendo que nem todas as pessoas gostarão do Jazz, e que muitas não serão por ele tocadas a ponto de gostar. Mas que seja feita pelo menos a tentativa. Tudo merece uma chance. Aos que não concordarem, devo dizer que são eles mesmo que saem perdendo, e muito, nesse provincianismo musical.
Dentre os argumentos mais comuns contrários, cito alguns. É música confusa. São coisas demais ao mesmo tempo. É difícil de entender. É difícil de acompanhar. É muito desordenado. Não tem lógica, não tem sequência, não tem harmonia. É irritante. É barulhento.
A meu ver, o que realmente ocorre é que o Jazz nunca foi realmente difundido. Muitas pessoas realmente não conseguem entender e acompanhar o estilo musical - que é altamente imprevisível - e, assim, não conseguem apreciá-lo como ele de fato é. E apreciar o Jazz é algo que, normalmente, se aprende aos poucos. Mesmo os indivíduos que são completamente arrematados, em uma espécie de amor à primeira nota, como eu, em geral levam tempo para conseguirem sentir o verdadeiro Jazz que há no Jazz. Para sentir a liberdade se materializar em som, o espírito vibrar, a alma dançar, o coração sincopar.
Jazz é liberdade porque foge da padronização. Porque é essencialmente composto de improvisações. Logo, é espontaneidade bruta, lapidada em notas e tons pelos saxofones altos, baixos, barítonos, pelos pianos de todas as cores, pelas cordas de diversos tamanhos, pelos sopros, pelos trompetes, pelos trombones e, acima de tudo, pela criatividade aguçadíssima feita em arte. É indefinível. É, muitas vezes, uma coisa diferente para cada pessoa. É, outras tantas, universal.
Além de tudo, Jazz é paz e união, sincretismo musical de diferentes culturas, diferentes cores, diferentes raças. Para mim, se fosse pedido um ideal em forma musical, eu responderia Jazz sem hesitar. É ideal de fraternidade, liberdade e paz. E, o que o torna ainda mais bonito, reflete a doce espontaneidade da vida. É isso que eu sinto quando escuto um Miles Davis, um John Coltrane ou um Dave Brubeck fazendo a sua mágica. E sentir é uma forma de interagir com o mundo. E imaginar o mundo. E a arte não é uma das formas de compartilhar os nosso ideais, de expressar o que sentimos, o que sonhamos?
Bem, falando nisso tudo, estive no Jazz Festival Brasil na semana passada, acompanhado dos meus grandes amigos Rodrigo e Leonardo (fica aqui um abraço para eles). E foi fantástico. Assistimos Bob Wilber em parceria com Dany Doriz e banda, que foram ao Jô Soares no dia 25/08:
Eles tocam muito. Muito mesmo. Demais! Aqui dá para entender melhor o que eu estou falando:
É, o Jazz está começando a se popularizar. O Jazz Festival Brasil foi um bom exemplo disso, trouxe grandes artistas, música de altíssima qualidade, abriu as portas para o público, não foi caro demais, teve boa repercussão. Alguns estabelecimentos já têm eventos frequentes com bandas locais. Tem o Festival Tudo é Jazz em Ouro Preto - não que tudo seja Jazz, falácia que se mostra cada vez mais comum - que este ano é de graça, pelo que estou sabendo. Tem outras. Mas acho que ainda falta muito para ele ser considerado, de fato, popular. O que seria muito bom para os seus amantes, já que significaria, por exemplo, maiores possibilidades de ocorrerem bons eventos envolvendo o estilo musical. E também seria muito bom para os novos apreciadores, a quem seria dado contemplar mais uma das belas facetas da vida, na forma de arte, na forma de música. Mas isso eles só saberiam depois de gostarem. O que eles só poderiam depois de tentarem. No mínimo, vale à pena tentar.
Por fim, para aqueles que se interessarem em entender melhor como o Jazz funciona, fica aqui uma boa referência: Como Funciona o Jazz.
Atualizado em 01/09/2009 às 14h27:
Como o Rodrigo fez um belo comentário, que amplia as idéias do post e acrescenta algo indispensável ao tema (música), aqui está ele:
Mas deixando a bobeira de lado…Muito bom o post! Escreveu muito bem sobre essa coisa pouco definível que é o jazz…e acrescento que pra mim não so o jazz como as mais variadas formas de música, apesar de terem suas nuances e peculiaridades, transmitem esse sentimento amplo, essa alegria, essa materialização da liberdade. A música é infinita e explorá-la é um dos maiores prazeres que eu conheço.




