Outro dia, o Léo, um chileno amigo meu, chamou outro conhecido para ir para um almoço que alguns outros amigos e amigas haviam combinado fazer. Quando o cara chegou, parecia ser normal. Fomos apresentados e nenhuma grande surpresa aconteceu.
Depois de algum tempo de conversa, perguntei se ele era espanhol, por causa do seu sotaque forte e característico. E ele respondeu: “não, sou basco”. Eu, com meu imenso tato para estas questões, ri.
A minha reação desagradou um pouco o mano, que fechou a cara e não disse mais nada. No momento, pensei que deveria dizer algo que aliviasse a pressão, porque o cara estava, em certo sentido, ofendido e eu, bem desconfortável. Num instante, me lembrei de que a língua ou dialeto, sei lá eu (olhei no dicionário, mas dialeto se define como uma língua peculiar a uma região e língua, sistema de comunicação comum a uma comunidade lingüística), que se fala no, dito, país basco, se chama Euskera. Então, mais do que depressa tirei essa da manga, e perguntei se ele falava o diabo da língua. Tudo ficou bem, o cara perguntou como eu sabia e tal e daí a conversa fluiu normalmente e foi parar em futebol.
O que me impressionou foi a reação do camarada. Se o cara nasceu no país basco e o país basco é pertencente à espanha, o cara, em certo sentido, é espanhol. Ainda mais que, no decorrer da conversa ele disse que seus pais não nasceram no país basco, são “imigrantes” e não se fala Euskera em sua casa.
Pensando sobre outros espanhóis (ops, catalães, andaluzes, galegos, por ai vai) que já conheci, vi que, em alguma medida, todos são um pouco assim, falam uma língua (um pouco) diferente do espanhol stricto sensu e se sentem menos espanhóis e mais de seus respectivos lugares de nascimento.
Curioso. No Brasil, ou na maioria dos países pelo mundo, nem ligamos pra isso. É claro que há identidades culturais diferentes, mas, justamente, são as diferenças que fortalecem a miscelânea cultural do Brasil e de vários outros países. É certo também, que não temos diferenças lingüísticas tão fortes, nem grupos terroristas (como o ETA, por sinal, basco), que tenham feito atentados para forçar uma independência, então, realmente não há tanta gana em se definir como x ou y, somos todos brasileiros.
Mesmo assim, fico imaginando se, quando a Espanha ganhou a Eurocopa no ano passado, ele festejou, ou achou que não era com ele. Ou quando lê Cervantes, identifica o autor e Quixote como compatriotas andaluzes, ou apenas personagem e escritor estrangeiros.
Não que ter uma forte identidade local seja empobrecedor, até penso no contrário, é legal, no meu caso, ser belohorizontino e mineiro, há várias nuances e vicissitudes próprias de cada rua, cada bairro e assim por diante. Mas retificar que sou brasileiro, é dureza, né. Até porque, por que deveria me fechar à fazer parte de um conjunto maior, que é legal e que não torna menor a importância dos outros de que também participo?
Se eu fosse esse mano, ao ser perguntado se era espanhol, responderia: sim, mas primeiro sou basco.




